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Entrevista

Abbé Pierre: o maior mal é a pessoa sentir-se inútil

Ao longo da conversa, o rosto da fadiga transfigura-se rapidamente. Os olhos do Abbé Pierre, semicerrados de início, abriram-se para dar expressão às palavras, a voz quase de surdina no princípio, deu um novo vigor às afirmações. Contador de histórias – as perguntas só dão o mote – o inspirador dos Companheiros de Emaús recorda, nesta conversa, o início da sua aventura, em 1949, quando começou a acolher gente desafortunada em sua casa, depois de ter sido franciscano, membro da Resistência francesa ao nazismo e deputado no pós-guerra.

No inverno de 1954, Henri Grouès, nome de batismo do Abbé Pierre, fez o seu apelo em favor do abrigo para gente sem casa: “Meus amigos, socorro! Uma mulher acaba de morrer gelada, esta noite...”

Os Companheiros de Emaús, gente que vivia na rua, sem nada que comer, e que passou a viver da recuperação dos desperdícios, aí estão para o provar. Com gestos multiplicadores: depois de se alimentarem com o dinheiro obtido com a recuperação de desperdícios na rua, de pagar a segurança social e as férias, os 310 grupos dos “trapeiros de Emaús” existentes em 36 países ainda destinam verbas para apoio a outros necessitados.

Em português, estão publicados vários dos seus livros: O Absoluto, As Quatro Verdades, Fraternidade, Testamento (ed. Notícias/Casa das Letras), Obrigado, Senhor (ed. Gráfica de Coimbra) e Porquê, meu Deus? (ed. Dom Quixote).

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Esta entrevista, que integra o livro "Deus vem a Público - Entrevistas sobre a transcendência" (ed. Pedra Angular, 1.º volume), foi realizada a 5 de julho de 1995 por António Marujo, autor da obra, e Aura Miguel, da Rádio Renascença.

 

Como define o carisma de Emaús?

É preciso saber que este movimento, Emaús nunca foi um projeto, ou seja, a realização de uma coisa pensada – há tal problema, depois da guerra as pessoas não têm casa, vamos puxar pela cabeça e fazer um programa. Não sou um homem capaz disso e todo o movimento nasceu de imprevistos, de circunstâncias que aconteceram por acaso.

 

Recorda-se desse momento inicial?

Claro. Perguntam-me às vezes quando é que fundei o movimento e respondo que nunca o fundei. Sei quando começou. Eu não tinha fortuna, porque quando me tornei [franciscano] capuchinho [em 1931], tinha renunciado a qualquer herança. Mas tinha sido deputado, tinha algum dinheiro e utilizei-o para comprar terreno e materiais e comecei, ilegalmente, sem licença, a construir alojamentos para famílias muito pobres.

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Um dia – foi quando tudo começou – chamaram-me por causa de um homem que tinha tentado suicidar-se. Não morrera e contou-me a sua vida. Quando tinha 20 anos, num drama familiar, matara o pai e fora condenado a prisão perpétua e enviado para a Guiana. Depois de 20 anos foi libertado e, quando voltou, viu a sua mulher viver com outro e com outros filhos. Desesperado, quis matar-se.

Quando ele me contou a sua vida, eu disse-lhe: “George, tudo isso é terrível, mas eu não posso fazer nada. Sou deputado mas todo o meu dinheiro foi gasto e tenho dívidas por causa de famílias com crianças que vivem em caves e em condições insuportáveis”.

E disse-lhe: “Eu não te posso dar nada, porque tenho dívidas. Mas tu, uma vez que queres morrer, não tens nada que te embarace. Antes de te matares, não queres ajudar-me a acabar algumas destas casas para essas mães que choram?”

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Fez-lhe sentir que ele podia ser útil, ainda…

…Não foi dizer ao desgraçado “toma, que eu dou-te”, mas dizer-lhe “outros precisam de ti”. Ele repetiu-me, quando morreu 15 anos mais tarde: “Mesmo que me tivessem dado trabalho, dinheiro, uma casa, eu teria recomeçado o suicídio. Mas pedindo-me que trabalhasse consigo, em conjunto, e em favor de outros, reencontrei a razão de viver: amar, sofrer para que os outros sofram menos”.

Este homem veio viver comigo e, nesse dia, a primeira comunidade de Emaús começou com um padre, deputado por acidente de guerra, e um assassino e suicida mal sucedido. E estes dois decidiram em conjunto dedicar todas as suas energias e o seu tempo livre aos mais infelizes que eles.

Os jornais falaram do caso: o padre deputado com o assassino que construíam uma casa sem licença. E toda a gente de Paris que encontrava um homem perdido dizia: “Meu amigo, agora é simples, vá a casa do Abbé Pierre”.

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Depois, saiu do Parlamento…

Deixei o Parlamento ao fim de sete anos. Mas no dia em que saí, já éramos 18 na casa, não havia mais dinheiro e à noite, um dos meus companheiros, percebendo que eu tinha ido mendigar, disse-me que não aceitava que eu fosse mendigar por eles.

Eu disse que já não havia que comer. Dois deles disseram-me que conheciam o meio de ter dinheiro necessário para viver sem mendigar. E explicaram-me que quando andavam perdidos, tinham feito trabalho de recuperação. Na nossa sociedade há um desperdício enorme: deitam-se fora rádios, bicicletas, etc. Se conseguirmos recolher tudo isso, separá-lo, reordená-lo e vendê-lo, conseguiremos ter o dinheiro suficiente.

Nos grupos que temos no mundo, calculamos que, depois de termos alimentado toda a gente, pago a segurança social e as férias, damos cerca de quinze milhões de dólares [perto de doze milhões de euros] cada ano.

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Ou seja, ainda dão a outros que precisam mais…

A nossa primeira regra é que, se não estamos doentes, recusamos ofertas. Queremos que o nosso pão seja ganho pelo nosso trabalho. É a primeira reabilitação. A segunda regra é a partilha. Quer dizer: o homem muito forte que pode carregar toneladas, não é mais que o velhinho que só pode ajudar. Terceiro, queremos trabalhar mais que o suficiente, para sermos – os humilhados de ontem – capazes de dar.

 

O movimento define-se religiosamente?

O movimento é completamente ecuménico. Há protestantes luteranos nos países escandinavos, há calvinistas na Suíça, há muçulmanos, há budistas no Extremo Oriente. Nasceu do espírito evangélico, com um padre, mas os bispos franceses escreveram-me uma carta para me dizer: “Agradecemos à Providência tê-lo chamado a este apostolado do alojamento, tão necessário” – a fórmula é muito bela, “apostolado do alojamento”. “Nós, os bispos, pensamos não dar à sua ação um patrono que a clericalizaria e o privaria da possibilidade de tocar todos os tipos de pessoas que sofre”.

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Quando recebi esta carta, respondi ao bispo que a assinava, que era um amigo, dizendo-lhe: “Você fez um milagre: enviou-me a bênção juntamente com a liberdade”.

 

Não há um contraste entre o desenvolvimento económico e o aumento do desespero, com a indiferença das pessoas em relação aos pobres?

Não creio que seja verdade dizer que hoje há mais indiferença relativamente aos pobres, mais que em outras épocas. A realidade é que a Terra está num momento como nunca houve na história: é a primeira vez que tudo é planetário. Não podemos nunca dizer, diante de qualquer tragédia, que não sabíamos. Não é verdade, agora sabemos tudo.

Depois, estamos num período da história do mundo em que os progressos técnicos fazem com que tenhamos muito menos necessidade de operários. Vemos hoje os engenheiros russos que vão para Singapura ou para a Coreia porque sabem que lhes pagarão dez vezes mais que em Moscovo. Nesses países têm mão de obra barata, pagam mal aos operários, não têm leis sociais nem proteção familiar, e conseguem fabricar-nos produtos de primeira qualidade e menos caros.

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Isto altera completamente o mundo de hoje porque provoca desemprego nos países com indústria mais avançada – em França, há três milhões de trabalhadores desempregados. E vai obrigar a novas partilhas: partilhas sociais, entre nós, como a da fábrica Wolkswagen [redução de 15 por cento do salário em toda a empresa para evitar o desemprego de várias centenas de trabalhadores] e partilhas internacionais.

 

Então, o que é o pior que pode acontecer?

O pior, o maior mal é que a pessoa se sinta inútil, supérflua na humanidade. Essa é a pior pobreza, sentir que se está a mais, que ninguém tem necessidade de si. E como não se é essencial, há um fundo ao qual se vai todos os meses estender a mão para que nos deem de comer.

Uma consequência mais de tudo isto é que nunca houve na sociedade industrial o tempo livre. O que se vai tornar o tempo livre? Será uma ocasião maravilhosa de permitir, com universidades populares, àqueles cujas famílias não são ricas, tornar-se mais pessoas, ou será uma ocasião para a ociosidade, a droga, o álcool, a sida? Um dos grandes problemas imediatos é o que fazer desse tempo livre.

FotoCondecoração pelo presidente da França, Jacques Chirac (2001)

Os Estados Unidos dizem que têm 30 milhões de habitantes a viver abaixo do mínimo vital. Jacques Delors disse-me uma vez que quando a Europa era a doze, havia 40 milhões de pessoas abaixo do mínimo vital.

 

É esse o insucesso principal das democracias ocidentais?

Moralmente, de certeza. Porque se cada um não olha senão para si e não inventa ações para tornar útil os que não têm ocupação, então será a degradação. É preciso que cada um se prepare para a partilha.

 

Há também soluções políticas?

Claro, é evidente. É preciso que o parlamento vote leis. Mas as decisões políticas, em democracia, começaram sempre pelo único príncipe que é a opinião pública. É a opinião pública que quer e, como ela quer, os eleitos, os candidatos, os ministros têm-na em conta.

Mas essa opinião depende de vós. E vocês têm uma responsabilidade ou uma culpabilidade, através dos meios de comunicação, de formar a opinião pública. Adverti-la, dizendo-lhe: “Vejam o que vos espera. Não podeis escapar, estamos todos sujeitos. Preparem-se para a generosidade”. E se soubermos dizer isso aos jovens, eles são capazes de generosidade. Não é sério dizer que não há generosidade na juventude atual.

 

António Marujo, Aura Miguel
In Deus vem a Público - Entrevistas sobre a transcendência, ed. Pedra Angular
05.08.12

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Abbé Pierre

 

 

 

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